domingo, 21 de agosto de 2011

Além das janelas...

Que estranho é que insistamos em andar com nossas “janelas fechadas” e nem percebemos mais isso! Prezamos tanto, tanto por nossa zona de conforto que fazermos de tudo pra não sair dela porque, afinal ela é nossa e o melhor: é confortável! Porque permitiremos que ela seja atrapalhada?

Por exemplo, os carros. Dizemos que aqui em Fortaleza é absurdamente quente e, por isso, precisamos fechar nossas janelas pra ficarmos sempre com ar-condicionado. Mas não percebemos que, quando fazemos isso, acabamos nos fechando para todo o resto, os “universos ao lado”, as outras pessoas, paisagens, situações, etc. Não estou dizendo aqui que não se deve ficar com o ar-condicionado, mas sim que precisamos e devemos olhar, ao menos de vez em quando, além dos nosso vidros fumês.

Muitas vezes, quem pede esmola não recebe nem um “não” mais. Simplesmente ignoramos. E continuamos com a vida, nosso conversa ali dentro, com a nossa trilha sonora, o nosso conforto..o importante é ser feliz! Aliás, o importante é que EU seja feliz!

Sinceramente, acho que o ser humano foi criado para mais do que simplesmente pensar em si mesmo. E é por isso que faço esse convite para “baixarmos nosso vidros”, onde quer que eles estejam, seja preconceito, seja preguiça, ou conforto, onde quer que estejam.

Simone Weil escreveu: ”Vemos sempre a poeira na janela, mas jamais a janela em si". O que acontece é que essa janela em questão, essa é grande, tão grande, mas muitas vezes a gente continua sem conseguir enxergá-la. As oportunidades. A vida. As pessoas. O "universo ao lado". Tudo o que tem ao redor. Não tem como não ver isso! Não tem como simplesmente lavar as mãos e deixar a vida passar. Como a gente vê nessas frases clichês: "a verdadeira função do homem é viver, não existir". E é justamente isso! Será que a gente insiste em ver poeiras? Em teologizar/teorizar tudo? Quando é que a gente vai ter coragem de andar na contramão, deixar de ser NEUTRO e conseguir, em tudo, afirmar um ponto de vista?

De vez em quando me chamam de doido ou maluco, e isso acontece quando me veem chegando ou sainde de algum lugar de bicicleta. “Mas Diogo, você não tem um carro? Cadê o seu carro?”. E quando digo que vendi por que prefiro andar de bicicleta, ser sustentável, poder dar “bom dia” pras pessoas na rua (mesmo quando elas têm medo por acharem que vou assaltá-las!), ver as ruas, prédios, lugares, acontecimentos a partir de outros ângulos e “velocidades”, aí eu sou chamado de doido. Doido por que estou decidido a derrubar algumas de minhas janelas, a tirar meu vidro fumê e poder ver, claramente, o que há no outro lado.

Lembro quando voltei dos 3 anos no Senegal. Eu vivia em uma aldeia, não tinha água encanada, luz, “velocidade” em nada...e todos se conheciam, se falavam, se importavam. Ao voltar ao Brasil, lembro de ter ido a um shopping num sábado a noite e fiquei chocado. Chocado ao ponto de chorar. Imagina a cena, um homem de 1,90m, chorando, no meio do iguatemi. Eu havia acabado de retornar de um lugar onde as pessoas se falavam, se olhavam, e não só um “oi, tudo bem?”, mas queriam saber da família, saúde, problemas ou bençãos, etc. Meu choque (que os antropólogos vão chamar de choque cultural reverso) é que no Iguatemi, lotado, era “cada um por si”, com seu grupo específico, passos definidos, e ninguém os faria mudar de rumo, baixar um pouco que seja seus vidros, enxergar um pouco do outro lado.

Escrevo sobre janelas por que, muitas vezes, é a partir delas que vemos o mundo. Dizem que os olhos são as janelas da alma, então aí é que o termo serve mesmo. Escrevo por que quero poder parar um pouco antes que esteja rápido demais para enxergar o que está ao meu redor. Escrveo por que quero ter disposição para ver de outro jeito o que se passa à minha volta. Escrevo por que espero que a minha escrita possa alcançar outros e, quem sabe, ajudar a quebrar alguns vidros e descascar alguns fumês.



Diogo Militão
diogo_gbu@yahoo.com.br
poeiranajanela.blogspot.com

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito bacana, Diogo!
    A vontade que eu tenho é de ter uma moto, ou até mesmo uma bicicleta, como você mesmo faz. Acho estranho as pessoas não se sentirem presas com tantas 'janelas' fechadas e tantos 'vidros fumês'.
    Ao ler sobre o 'pensar em si mesmo', lembrei de uma frase que vi no filme Ponto de Mutação: "Ninguém é uma ilha. Todo ser humano é parte de um continente." Os problemas que existem para além das 'janelas' são nossos também, mas muita gente põe um 'fumê' bem escuro e finge não ter nada a ver com isso.
    Somos todos seres humanos e, sem dúvida, um olhar, um "olá" e um sorriso nos deixam mais próximos!
    O seu estranhamento me fez refletir bastante sobre essas e outras questões. Sugiro que o restante da turma também pense a respeito.
    Vamos descer os vidros, galera!

    Luna Diniz

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  3. Diogo,
    Confesso que, quando li teu texto, senti um arrepio forte, talvez parecido com o que você sentiu quando estava no Iguatemi. Suas palavras realmente me tocaram. Acho que você descreveu tão bem essa realidade...
    Acredito que, no período e no local onde vivemos, uma das grandes “desculpas” pra essa questão é a violência. As pessoas confiam cada vez menos nas outras e sentem dificuldade em reconhecer quem vai ou não fazer algum mal. E isso é bem triste, já que, dessa forma, nos afastamos de pessoas que poderiam, até, nos fazer bem. Recomendam logo: fechem os vidros. Infelizmente, muitas vezes, temos que fazer isso.
    Mas e em outras situações mais simples? Uma coisa que me incomoda, EM ALGUMAS SITUAÇÕES (tudo depende do contexto), é o uso de fones de ouvido. Sinto que, com isso, posso me afastar temporariamente das pessoas e criar um mundo quase particular. Ontem, cheguei cedo na sala e ainda não tinha chegado ninguém. Sentei na última cadeira da última fileira e, então, resolvi ouvir música. Pouco depois, chegou uma senhora e sentou na primeira cadeira. Ela falou comigo, pedindo algumas informações. Tirei o fone e tirei suas dúvidas. Pouco tempo depois, quando eu já estava ouvindo música novamente, ela fez outra pergunta. Tirei novamente os fones e respondi. Ela agradeceu e pediu desculpas por ter me “atrapalhado”. Me senti um pouco mal com isso. Não gosto de usar objetos que me afastem das pessoas quando elas estão presentes. Acho que pessoas não deveriam ser trocadas por nada (usei isso apenas como exemplo e repito: tudo depende do contexto; não critico quem ouve música com fones, ok? xD ) Eu poderia ter ficado lá, calada, pouco sociável do jeito que sou, às vezes, tímida, mesmo sem ter falado nada com ela, mas sem os fones. Porque, mesmo sem estar conversando com ela, eu estaria ali, realmente presente. Enfim, acho que faria alguma diferença.

    “Lembro quando voltei dos 3 anos no Senegal. Eu vivia em uma aldeia, não tinha água encanada, luz, “velocidade” em nada...e todos se conheciam, se falavam, se importavam.”
    “...com seu grupo específico, passos definidos, e ninguém os faria mudar de rumo”

    É verdade... Aqui, normalmente, realmente, existem algumas pessoas que “escolhemos” para nos importarmos da forma que você citou. Mas é estranho como, algumas vezes, há quem não se importe nem com os “mais próximos”. Não se importam de verdade nem com aqueles que chamam de amigos. Existe uma competição tão grande pra ver quem é “o melhor”, com cada um por si e, no fim, são todos uns bobos que praticamente vivem em função desse objetivo tão vazio: ser melhor que o outro. E tornam-se, cada vez mais, piores. É fato que a sociedade nos conduz a esse pensamento: devemos ser melhores que o outro e cuidar apenas de nossas próprias vidas (meio contraditório, mas quem convive com isso entende muito bem o que falo). Mas cabe a nós adotar ou não essa forma de pensar. Que sentido isso faria? Particularmente, não vejo nenhum sentido válido.

    “Sinceramente, acho que o ser humano foi criado para mais do que simplesmente pensar em si mesmo.”

    Gostei muito do teu texto. Fico feliz por sua forma de pensar e de agir.

    Abraço, Monisa.

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  4. Adorei esse texto, é um jeito diferente de ver a vida!

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  5. É isso aí, pessoal!! Vamos crescendo juntos aqui! E, quem sabe, possamos "ajudar a quebrar alguns vidros e descascar alguns fumês"!!
    Valews!!

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