E minha vida, de quem é?
Que estranha é a necessidade que cada indivíduo tem de viver sua vida de modo a agradar a terceiros, que basicamente pré-definem tudo que se tem que ser e se obter ao longo da vida. Isso não acontece somente com pessoas consideradas submissas ao extremo, ou incapazes de pensarem por si próprias. Se pensarmos bem, é um evento bastante comum no cotidiano humano fazer algo, de determinada forma, porque é isso que é esperado e exigido de nós. E quantas vezes será que realmente pensamos “O quão pertinente isso será para minha vida? Para o jeito que eu pretendo vivê-la? Até onde vai o limite entre o que é a minha vida e o que é a vida dos outros em meu viver?”
Como falar de liberdade nos tempos atuais? Será que só porque as formas de exploração mudaram, se tornando mais sutis e menos explícitas elas não deveriam mais ser consideradas explorações? Como falar de liberdade de expressão completa quando nossos métodos e maneiras de nos expressar são diretamente influenciados e contaminados pelas idéias transmitidas, injetadas e dominadas por instituições como a moda, a mídia entre outras?
Não é novidade que vivemos nossas vidas de modo a nos adequar a uma determinada cultura, uma sociedade com valores e expectativas estabelecidas de melhor forma para manter um poder ou “ordem” (o conceito de ordem varia de acordo com o ponto de vista dos lados dentro de um conflito). Porém, nos últimos cem anos principalmente, os mecanismos de dominação têm lentamente se direcionado cada vez mais a uma dominação ideológica, ao invés de uma dominação física, visceral, como acontecia na antiguidade, quando os imperadores castigavam seus súditos com torturas e mortes que mais lhes entretessem. Já hoje, uma manipulação latente é muito mais notório, seu sucesso é devidamente controlado, pois afinal, o que melhor do que pessoas vivendo suas vidas segundo um modelo “x” sem saber que o fazem porque assim lhes é incumbido? Uma dominação praticamente invisível, as pessoas seguem seus afazeres acreditando que tudo o que são e o que fazem é fruto de sua livre escolha, de suas opiniões próprias, da individualidade de seus gostos e interesses.
Nossas influências vêm, em primeiro lugar, daqueles que nos cercam todos os dias. O modo como os colegas de trabalho se vestem, o jeito de andar da menina mais popular do colégio, o jeito que minha mãe aguarda pela chegada de meu pai no fim do dia, o interesse que a namorada nutre pela arte abstrata ou que o noivo devota ao time de futebol pelo qual torce. Não somos influenciados por tais atitudes por que uma força implícita faz com que cada um dos indivíduos de uma sociedade queira se encaixar, se sentir acolhido. Somos influenciados também porque nossa criatividade não é estimulada no sentido de achar estilos de vida alternativos àqueles que prevalecem. Como a maioria dos pais nos criaria para pensarmos “outside the box” (fora da caixa) no momento de escolhermos nossas profissões, ou até mesmo, no momento de decidir se queremos ou não seguir uma profissão, se isso nos faz algum sentido; quando se vive em uma sociedade onde é inaceitável um ser que não se preocupe com o pão de amanhã, que não queira ascender socialmente, tirar seu maravilhoso diploma, ser “doutor”. Como as escolas educariam as crianças para fazer tarefas de casa e estudar só quando lhes fosse mais agradável, quando a inspiração lhes acometesse, sem se preocupar em fazer um trabalho perfeito (tendo em vista que este é um conceito incrivelmente líquido; quando se vive num mundo cheio de prazos, competições.
A verdade é que realmente não parece fazer muito sentido acostumar seres humanos a viver da forma como estes acharem melhor, falando livremente das idéias que tiverem sem se preocupar com as conseqüências de qualquer sorte. Em geral, se comportar de modo completamente alternativo ou incisivo àquele que é instituído em todo seu meio cultural. Encorajar pensamentos contundentes é perigoso, na medida em que o mundo não está pronto para receber um ser “alienígena” ou alienado, se é que há diferença.
Para finalizar, coloco aqui a idéia de que não é apenas o modo de viver que é institucionalizado, vendido nas prateleiras dos supermercados, anunciados nas propagandas de farmácias e forçados garganta abaixo quando nos rebelamos. O modo é estipulado, e a maneira de enxergá-lo também. A naturalidade, a passividade, a sensação de que assim o é e nada há para se fazer a respeito; não devemos questionar aquilo que, obviamente, está funcionando. Sim. Claro que está funcionando, só resta descobrir em função de quem nossas vidas estão funcionando e até quando continuaremos assim.
Clarice fofa. :)
ResponderExcluirDisse tudo.